Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

Natureza e divisão dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

O Livro dos Exercícios em sua natureza e alcance não é simplesmente um guia limitado ao tempo dos Exercícios. É antes um curso completo e prático de instrução em toda a vida espiritual para todas as pessoas em geral.

Para nós, em particular, é o manual ou diretório espiritual contendo o ascetismo de nossa Sociedade estabelecido com uma precisão legislativa. E de fato, as atividades espirituais de que trata o livro, como meditação, orações vocais e muitas outras, não são exclusivas do tempo dos Exercícios Espirituais, mas pertencem à vida inteira.

Falha-se, consequentemente, compreender o alcance prático do livro restringindo seu uso ao tempo do retiro e não levá-lo em consideração depois dele. Os próprios Exercícios são, na realidade, apenas um treinamento nas ações da vida espiritual ou uma obtenção de maior facilidade em sua execução.

Podemos convenientemente distinguir duas partes no Livro dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola:

Primeira parte

A série de meditações que constituem a estrutura dos Exercícios conectadas entre si e apresentadas em grande variedade, sendo distribuídas nas assim chamadas quatro semanas.

Segunda parte

Instruções, preceitos e regras da vida espiritual. A estes pertencem, em primeiro lugar, as anotações, que podem ser chamadas de introdução aos exercícios; depois, as adições, principalmente destinadas a orientar os praticantes quanto à meditação e ao exame particular.

Temos, também, as regras para circunstâncias particulares e necessidades da vida espiritual; por fim, notas que contém observações ocasionais e incidentais de vários tipos.

Introdução às quatro semanas dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

As anotações são nada mais que uma Introdução aos Exercícios.

Essa introdução contém primeiramente a definição dos Exercícios (Anotação 1); em segundo lugar, oferece subsídios para assegurar o sucesso tanto para quem passa os Exercícios quanto para quem os faz (Anotações 2-20).

Como o título diz muito bem “ad capiendam aliquam intelligentiam… ut juvet se is qui…”. Tanto o diretor quanto o praticante fazem pouco mais do que se ajudarem. “É Deus quem faz crescer” (ICor 3, 6); então também a palavra “juvet” no início do livro chama a atenção para a necessidade de esforço próprio.

Nestes comentários preliminares são dados de vez em quando, tanto para o Mestre como para o Discípulo, sugestões e princípios muito importantes para a vida espiritual.

Anotações

A Primeira Anotação dá a definição dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, partindo de sua natureza até seu objeto.

Primeira consideração

Em sua natureza eles são, antes de tudo, ações espirituais, ou seja, não apenas operações naturais da vida espiritual, mas sim sobrenaturais. Portanto, são operações que têm por objetivo atingir o fim sobrenatural para o qual o homem foi criado (ad salutem animse).

Pois assim como as faculdades vegetativas, sensitivas e espirituais da vida natural são exercitadas na corrida, na luta, na leitura, no estudo, etc., por meio das quais o homem se prepara para seu fim natural; assim também a vida sobrenatural tem seus exercícios espirituais.

Ora, essas operações só podem consistir em conhecer a Deus, amá-lo e tornar-se semelhante a ele segundo o exemplo de nosso Salvador, por meio da contemplação e da aplicação prática das verdades da salvação.

Santo Inácio, portanto, define os Exercícios Espirituais concretamente, enumerando algumas dessas operações espirituais, como meditação, oração vocal, exame de consciência, etc. Aqui Santo Inácio não enumera todas elas: por exemplo, as regras para a eleição, e muitas outras que são encontradas no livro.

Os Exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, portanto, são tudo o que, por meio de nossa própria atividade, nos ajude a chegar ao nosso fim sobrenatural, a visão de Deus. Aqui, mais uma vez, o esforço próprio é exigido (operatio). Devemos agir por nós mesmos e não apenas sofrer a ação. Consequentemente, os Exercícios são preeminentemente ascetismo no sentido primitivo da palavra.

O que acabou de ser dito sugere o primeiro belo motivo para atribuir um alto valor aos Exercícios e para fazê-los bem. São  exercícios que se relacionam com Deus e com a nossa salvação eterna. São, portanto, de uma ordem mais elevada do que qualquer outra coisa que poderíamos fazer na ordem natural, tão sublimes e necessários. No ascetismo assim entendido reside a força para tudo o mais.

Segunda consideração

Na mente de Santo Inácio, o objetivo dos Exercícios com respeito à obtenção de nosso fim sobrenatural é mais prático do que teórico ou especulativo; e é triplo.

Primeiro objetivo dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

O primeiro e imediato objetivo é arrancar o que é desordenado em nossas paixões; o objetivo intermediário é aprender a conhecer a vontade de Deus a nosso respeito a fim de regular nossa vida de acordo com ela. O objetivo remoto é alcançar a salvação de nossas almas.

O objetivo imediato, portanto, é a mortificação (renúncia, autoconquista), que consiste em esmagar e remover tudo o que há de desordenado em nossas inclinações naturais.

Mas o que é desordenado? Aquilo que não promove o fim, vai ao lado ou contra o fim ou provavelmente irá contra ele. O que sempre é inútil, sem objetivo, perigoso, pecaminoso em uma palavra. Tudo o que não podemos justificar diante da fé e da razão é desordenado e, consequentemente, matéria de mortificação.

E por que esse deve ser o objetivo imediato dos Exercícios? Porque é muito necessário para nós. Nossa natureza é decaída, cheia de apetites desordenados que, mais cedo ou mais tarde, nos levam ao pecado. Porque, além disso, nos leva com mais segurança ao nosso fim último, a união com Deus.

Sem um esforço sincero para nos livrar de todas as afeições desordenadas, (omnes inordinatas affectiones), tudo o mais é auto-engano.

O seguidor de Cristo diz:

“Quanto maior a violência que ofereçe a ti mesmo, maior o progresso que farás”.

Observe bem, porém, que a mortificação não é o fim último, mas o fim imediato, portanto, apenas um meio.

Objetivo intermediário dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

O fim intermediário é conhecer a vontade de Deus e ordenar a vida de acordo com ela. União verdadeira e essencial com Deus e a verdadeira perfeição é ser o que Deus quer que sejamos.

Deus revela a sua vontade não apenas pelos seus mandamentos, mas também pelos deveres do nosso estado de vida e por inspirações especiais. Conhecer a vontade de Deus a respeito de cada um destes pontos, esforçar-se por ordenar a própria vida de acordo com a sua vontade. Este é o objetivo dos Exercícios, bem como de todas as práticas da vida espiritual.

Procurar obedecer totalmente à vontade de Deus no estado de vida de uma pessoa é a verdadeira espiritualidade, porque é a espiritualidade que Deus exige de nós. É espiritualidade prática, porque responde às necessidades da vida prática e permite-nos ser o que devemos ser; é espiritualidade sólida, porque parte de um princípio sólido, a vontade de Deus, e realmente nos faz avançar; é espiritualidade fácil, porque todos podem e desejam praticá-la, e Deus certamente dá Sua graça; é espiritualidade segura, porque não está exposta ao auto-engano.

Objetivo final dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

O objetivo final dos Exercícios, como de todas as outras ações de nossa vida, é a obtenção da felicidade eterna, que será tanto maior quanto mais perfeitamente atingirmos nossos objetivos mais imediatos.

O resultado prático dos Exercícios, então, é a ordenação e a reforma de nossa vida ou estado de vida de acordo com a mente e a vontade de Deus. Isto é, escolha de um estado de vida ou reforma em nosso estado de vida (eleição). Aqui Santo Inácio desce ao coração e atinge o ponto mais alto e o objetivo último dos Exercícios. Quão simples, quão necessário, quão sublime é este objetivo! E aqui temos um segundo motivo para pensar bem nos Exercícios e para fazê-los com toda seriedade.

Terceira condideração

Mas esse objetivo pode ser alcançado por meio dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola? Qual é a eficácia deles em torná-lo alcançável?

Que há virtude extraordinária nos Exercícios é provado primeiro pela experiência e, em segundo lugar, por sua natureza. Pois, quer os consideremos do ponto de vista objetivo ou subjetivo, eles são um agregado dos meios mais eficazes de salvação que podem ser encontrados em nossa religião católica.

A eficácia objetiva dos Exercícios reside na graça de Deus, no poder das verdades sobrenaturais e no arranjo psicológico das meditações e outras ações prescritas. A sua eficácia subjetiva consiste na cooperação que o exercitante sob a orientação do diretor deve realizar e que, quanto ao seu conteúdo, está contida nas Anotações.

E como os Exercícios atingem esse objetivo? Qual é a sua principal eficácia?

Os Exercícios espirituais não trazem de imediato a perfeição completa; eles apenas pavimentam o caminho da perfeição, preparando-nos e dispondo-nos para ela, como diz Santo Inácio. Isso eles realizam, e nada mais! Quão bem e quão corretamente isso é dito!

De fato, nada mais podemos fazer na vida espiritual. Isso é tão verdadeiro que mesmo um ato de contrição em si é apenas uma disposição e não a causa formal da justificação.

Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, portanto, preparam o caminho para a perfeição ao nos dar a conhecer a vontade de Deus quanto à escolha de um estado de vida ou à nossa reforma no estado em que vivemos, e também ao nos mostrar como remover os obstáculos que surgem de nossas paixões desordenadas.

Mas qual é o significado de “tirar de si todas as afeições desordenadas”?

É claro que não deve ser entendido no sentido de um desenraizamento completo de nossas paixões malignas, que muitas vezes é o resultado de uma vida inteira. É antes, do alcance de um domínio sobre elas que não permita lhes impedir-nos de seguir a vontade de Deus na escolha e ordenamento de nosso estado de vida.

Como isso pode ser feito é mostrado na décima sexta anotação. Devemos, no que diz respeito às nossas paixões desordenadas, distinguir entre a inclinação simples (habitus) e o ato (actus). Contra ambos, é claro, muito pode ser feito durante os Exercícios e por meio deles.

As nossas paixões malignas que são o pecado são expulsas e, se for o caso, tornadas impossíveis pelos Exercícios. Ou seja, pelas meditações sobre o pecado, pela penitência, confissão e sagrada Comunhão. A partir daí, pelo menos, nossas paixões não podem realmente nos impedir de fazer a vontade de Deus.

Certamente, os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola podem e devem ter esse efeito em todos os casos. Quanto às próprias inclinações ao mal, primeiro recebemos luz que mostra sua existência e natureza. Em segundo lugar, somos habilitados a tomar uma resolução firme para lutar contra elas, e este é o ponto principal, pois vacilações e recaídas ocasionais não são tão prejudiciais, desde que essa resolução permaneça firme. Em terceiro lugar, os Exercícios nos fornecem motivos poderosos, meios eficazes e o melhor modo de utilizá-los. E, por último, grandes e especiais graças nos são preparadas, as quais podem ser chamadas de graça dos Exercícios e que muitas vezes se mostraram maravilhosamente poderosas.

Certamente, Deus está mais disposto a conceder suas graças a nós, desde que removamos os obstáculos. E é exatamente isso que os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola realizam em grau muito elevado. Esta eficácia dos Exercícios é, portanto o terceiro grande motivo pelo qual devemos considerá-los altamente e ter grande confiança neles.

Quarta consideração

Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, conseqüentemente, são um sistema estreito e logicamente relacionado de verdades sobrenaturais. Meios e instruções práticas, contendo tudo o que ilumina, purifica, fortalece e molda a alma, e a torna capaz daquele grau de perfeição cristã, que, segundo o plano de Deus, está destinada a alcançar.

As outras Anotações [2-20] contêm sugestões e ajudas, algumas das quais são para o exercitante e outras para o diretor.

Primeira Semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

O objetivo da Primeira Semana é considerar seriamente o nosso último fim e compreendê-lo plenamente. Saber até que ponto nos afastamos do seu caminho e refazer nossos passos através da penitência e da mudança de vida.

Esta semana contém, portanto, duas partes:

A primeira é totalmente positiva e nos leva a considerar nosso fim último e a ficar profundamente impressionados por ele.

A segunda é parcialmente negativa, parcialmente positiva, sendo negativa na medida em que nos ensina como nos afastamos de nosso fim último pelo pecado. Por outro lado, é positiva na medida em que, pela penitência, repara os efeitos do pecado, e dirige o homem novamente para o seu fim último.

Princípio e fundamento

A natureza e importância do Fundamento.

Santo Inácio chama nosso fim último de “principium et fundamentum”; Nessas palavras, ele expressa toda a natureza e importância do assunto. O fundamento é a primeira e mais importante verdade para a teoria e prática da vida espiritual. Ele contém a verdade mais elevada e a única visão correta e sustentável da vida.

Nosso fim último é chamado de Princípio (principium), ou seja, a primeira verdade e máxima suprema na ciência prática da salvação. Tudo o mais é derivado dele, reduzido a ele e decidido de acordo com ele. Mesmo as mais altas exigências da vida espiritual e da santidade são apenas conclusões que fluem da simples verdade de que somos criaturas de Deus.

De fato, Santo Inácio se refere a essa verdade em todas as questões importantes. É um princípio, visto que, como os primeiros princípios do conhecimento, é evidente por si mesmo. Para o cristão, não são necessárias provas. Simplesmente o lembramos e nos orientamos a partir dele. No máximo, nós o explicamos contrastando-o com seu oposto.

Portanto, Santo Inácio não o desenvolve estritamente na forma de meditação, mas antes na forma de uma consideração simples. Pondo o intelecto prático para trabalhar, fica a meio caminho entre uma meditação estrita e um exame de consciência.

Simplesmente fixamos nossos olhos na verdade auto-evidente, até sermos preenchidos por uma torrente de luz e aquecidos por ela. Sob essa luz, vemos nossa própria vida e o movimento do mundo ao nosso redor, sem insistir, neste estágio, em aplicações e resoluções específicas.

Nada nos impede, entretanto, de tratar esse princípio como uma meditação estrita: este método é preferível até mesmo para pessoas que precisam de instruções mais explícitas e completas, como sempre se encontram nas missões. É um princípio e, portanto, deve deixar uma impressão profunda e duradoura.

Por sua relação com a vida prática, Santo Inácio também chama nosso fim último de fundamento. É, de fato, a base necessária, a única ampla e duradoura, sobre a qual nossa vida prática deve ser erguida e sobre a qual devem repousar nossas intenções, resoluções e ações, a prática da virtude e de toda boa obra.

O que quer que seja edificado sobre este alicerce e nele permaneça firme, dura pela eternidade. Tudo o mais cai em ruína. Sem esse fundamento, somos espiritualmente o que os homens sem princípios e objetivos são na vida natural: brincalhões levianos.

Exame de Consciência

O Exame de Consciência é, em sua natureza, um exercício da parte prática da vida espiritual, no qual investigamos o estado de nossas almas. Faz-se na medida em que o testemunho de consciência valha para esse efeito – a fim de descubrir nossas falhas e corrigí-las.

A importância deste exercício espiritual é evidente:

Primeiro pelo lugar que Santo Inácio lhe atribui, aqui na primeira semana, e imediatamente após o Fundamento. E pela forma como o recomenda a todos, nas Anotações 18 e 19.

Em segundo lugar, pelo cuidado e diligência com que ele queria que o praticássemos, e com que ele próprio o praticou durante a sua vida.

Em terceiro lugar, pelo objetivo que ele pretende servir “ad purgandum et confitendum”; sendo o exame um meio excelente de excitar a contrição pelo pecado e de limpar o coração das manchas produzidas por paixões indisciplinadas. O que o pincel e a vassoura são na manutenção da casa, o podador na jardinagem, o equilíbrio das contas na contabilidade, o exame de consciência é na vida espiritual, pois por ele devem ser regulados todos os outros exercícios espirituais.

Em quarto lugar, a importância deste exercício pode ser deduzida da sua própria natureza. Visto que é uma oração prática, abrangendo todos os atos do sacramento da Penitência, salvo a acusação e a absolvição.

Em quinto lugar, a sua importância pode ser vista no valor que as Instituições lhe atribuem e, por último, nos resultados da experiência, que mostram que sempre que o progresso feito não é o que poderia ou mesmo deveria ser, a falha está no uso descuidado do exame.

Exame Particular

O que acabamos de dizer sobre a importância do Exame Geral, vale especialmente para o Exame Particular. Este exercício, podemos acrescentar, é aquele que pertence peculiarmente à Companhia de Jesus. Isso porque Santo Inácio é geralmente considerado como seu autor, ou pelo menos como o primeiro a sistematizá-lo e a promover sua prática em todo o mundo.

A principal característica do Exame Particular é que lida apenas com uma coisa de cada vez, seja a correção de alguma falha particular ou a aquisição de alguma virtude especial. Nesse caso, podemos seguir um método negativo ou positivo, isto é, podemos fazer o exame incidir sobre as faltas cometidas contra uma determinada virtude ou sobre os atos positivos da mesma virtude.

É bom saber disso a fim de dar variedade ao exercício e assim evitar que nosso zelo diminua com a rotina e para adicionar maior entusiasmo à sua prática. Geralmente encontramos mais prazer em registrar nossas virtudes do que nossos defeitos, enquanto o lucro obtido é tão grande, senão maior.

É claro que não há avanço em qualquer virtude sem corrigir as falhas que se opõem a ela; mas se alguém confina toda a sua atenção à correção de falhas, as chances são muito pequenas de que adquira qualquer virtude em sua perfeição, ou de que alcance um alto grau de espiritualidade.

O método positivo é especialmente aconselhável sempre que as falhas forem reduzidas a muito poucas, ou sempre que ocorrerem apenas em um determinado momento do dia. Neste caso, a menos que o método positivo seja usado, o Exame Particular não se aplicará ao dia inteiro, e o fervor e a vigilância cessarão.

A explicação é dada em detalhes no Livro dos Exercícios, naquilo que é chamado de “três tempos próprios para recordar o Exame Particular” e nas Adições dadas para assegurar mais facilmente o fruto do exame.

Exame Geral

O Exame Geral difere do Particular nisso, pois não se ocupa de um ponto de cada vez, mas se preocupa com todas as nossas ações dentro de um certo espaço de tempo.

Digamos um dia ou meio dia. Santo Inácio trata primeiro do objetivo do Exame Geral, a seguir do assunto e, por último, do método de conduzi-lo. Além de purificar o coração e preparar-nos para a confissão, que Santo Inácio pretendia ser seu objetivo imediato (ad purgandum et confitendum), o Exame Geral tem outro bom efeito que é especialmente importante em nossa vida diária.

A saber, fazer-nos organizar nossos pensamentos de vez em quando e nos orientar, por assim dizer, na estrada para a perfeição. Assim como um viajante faz quando, depois de percorrer uma certa distância, olha em volta e se pergunta: até onde cheguei? Onde eu estou agora? Para onde vou?

A forma e o método do Exame Geral estão de acordo com a importância de sua finalidade.

O exame tem duas partes:

A primeira tem a ver com o passado, a segunda com o futuro. Daí seguir uma subdivisão em cinco pontos: pelo passado, ação de graças, auto-exame e contrição; para o futuro, propósito de emenda e oração pela ajuda divina. A primeira parte é negativa, a segunda, de caráter mais positivo.

Confissão Geral e Santa Comunhão

Primeira consideração:

As instruções de Santo Inácio para uma limpeza gradual e perfeita do coração e restauração da ordem na consciência são completadas por suas observações sobre a Confissão e a Comunhão. Esses dois sacramentos, sem dúvida, efetuam em nós a destruição completa do pecado; negativamente, pois eles lavam a culpa do pecado.

Diminuem, se não removem inteiramente sua punição temporal, e enfraquecem nossas más paixões por meio de graças reais especiais às quais a recepção desses sacramentos nos dá direito. Positivamente, por outro lado, porque esses sacramentos nos protegem do pecado, aumentando, elevando e fortalecendo em nós toda a vida da graça.

Fortalecer em nós a vida da graça é, de fato, o fruto especial da Sagrada Comunhão: cujus receptio, como diz Santo Inácio. Non solum juvat ne labatur in peccatum, sed etiam ut conservet se in augmento gratiae; ou como diz a Igreja na oração ao Santíssimo Sacramento, ut redemptionis tuae fructum in nobis jugiter sentiamus.

Para Santo Inácio, o exame de consciência, seja particular ou geral, é apenas uma introdução e uma preparação para a confissão e comunhão “ad purgandum et confitendum”. Enquanto o exame de consciência, a confissão e a comunhão, todos juntos e devidamente utilizados, são os meios poderosos para a renovação, melhoria, elevação e preservação da vida espiritual.

Segunda consideração

Santo Inácio mostra-nos a elevação e a amplitude do sacramento da Penitência e a sua eficácia, quando nos fala das vantagens de uma confissão geral, mesmo para aqueles que não são obrigados a dela fazer uso por causa de más confissões anteriores. Ele aconselha seu uso durante o retiro, logo após os exercícios da primeira semana.

E isso, por três razões:

Primeiro, porque à vista dos pecados e da maldade de uma vida inteira, a tristeza é mais sentida e seu efeito e mérito são maiores em consequência.

Em segundo lugar, alcançamos, no decorrer dos Exercícios, um conhecimento mais íntimo de nossos pecados e sua maldade do que em outras ocasiões. Quando nossa vida interior é examinada menos de perto; de onde, da mesma maneira, nossa dor será mais intensa e seu mérito maior.

Por último, por uma confissão perfeita estaremos melhor preparados para a Sagrada Comunhão. Santo Inácio considera, portanto, aconselhável uma confissão geral durante o retiro, mas em nenhum lugar ele nos dirige a recomendar o uso indiscriminado da confissão geral e da Comunhão.

Método de meditação desenvolvido a partir da Meditação sobre os três pecados

Essas três meditações são de grande importância para a teoria da oração mental. Santo Inácio nos dá, na primeira delas, uma instrução prática sobre a meditação das verdades da fé, ao mesmo tempo tão breve, tão marcante e tão cheia de significado, que nada melhor pode ser dito sobre o assunto. Esta instrução abrange a natureza da oração mental em geral, bem como as várias partes constituintes de uma meditação.

Santo Inácio toca brevemente na natureza da oração mental no título da primeira meditação, isto é, ele o explica pelas faculdades especialmente exercidas e o método em que são postas em ação. A prece mental consiste em um exercício peculiar e sério das três faculdades da alma: memória, compreensão e vontade.

Na oração mental, fazemos uso de conceitos e pensamentos internos, não de palavras ou formas de oração pronunciadas com os lábios, que pertencem essencialmente à oração vocal. Orar mentalmente é, em outras palavras, ruminar, refletir seriamente sobre as verdades da fé a fim de regular nossas vidas de acordo com elas e, portanto, agir de acordo com nossa vontade para o seu aperfeiçoamento.

A menos que com isso pretendamos influenciar nossa vontade, ruminar sobre as verdades da fé não será meditação, mas um mero estudo teológico. Desta definição de oração mental, vemos que ela exige necessariamente uma ação peculiar das faculdades da alma. Pois as verdades da fé não podem influenciar a vontade a menos que a memória apresente ao entendimento a substância e a história dessas verdades, com as circunstâncias que as acompanham.

Essa é, nesta meditação, a tarefa da memória. No momento em que deixa de cumprir seu dever e, relaxando seu domínio sobre o tema da meditação, toma outra coisa e a apresenta ao entendimento. Essa faculdade também passa para o novo objeto e temos uma distração. O entendimento, então, se esforça para se convencer da verdade do mistério. Para penetrar seu significado, para vislumbrar sua beleza, sua profundidade, sua sublimidade e sua importância, para encontrar motivos para influenciar a vontade e, por último, para apreender seu significado prático para a vida diária, tirando conclusões e fazendo aplicações.

A vontade, entretanto, movida pela verdade, provoca imediatamente atos de aversão ou de prazer e desejo. Ao mesmo tempo, procura evitar o mal ou possuir o bem, recorrendo à compreensão prática dos meios necessários, que são boas resoluções da nossa parte e, da parte de Deus, graças solicitadas pela oração fervorosa que , estando sempre ao nosso comando, podemos utilizar a qualquer momento.

Podemos comparar todo o processo de oração mental à inspeção de uma pintura. A memória é como a mão que segura a pintura à vista; o olho e sua ação se assemelham ao entendimento e seu trabalho; a satisfação ou desagrado decorrente da inspeção correspondem à vontade.

Memória, compreensão e vontade são de fato chamados à ação na oração vocal, caso contrário não seria a oração humana, mas são chamados à ação apenas superficialmente e nunca de maneira tão completa e fervorosa.

A oração vocal é um olhar de relance para uma pintura; a oração mental é uma contemplação prolongada à nossa vontade, a fim de fazer um estudo aprofundado da pintura. Esse tipo de oração deve produzir efeitos profundos e duradouros, pois é muito fácil passar muito tempo nela, enquanto para fazer um progresso notável na vida espiritual é mesmo moralmente necessário.

Meditações sobre o pecado

Com essas meditações, tem início a segunda parte da primeira semana.

Elas mostram o lado oposto do Fundamento ou o afastamento de nosso fim último por causa do pecado. Na verdade, só o pecado nos afasta de nosso fim último, visto que em sua própria natureza o pecado é uma renúncia completa a ele. Tanto é assim, que o pecador é impotente para alcançar esse fim a menos que Deus novamente conceda ajuda e mostre o caminho.

Este caminho não é outro senão o da penitência e da justificação. Santo Inácio coloca o pecador em três meditações através do processo completo de justificação; uma nos Três Pecados, outra nos Pecados Pessoais e uma terceira no Inferno. Essas três meditações formam um todo intimamente conectado, nenhuma parte da qual deveria faltar em uma conversão completa.

A tendência deste processo de justificação é muito parecida com a seguinte concatenação:

Primeiro

Primeiro, o pecador deve se desligar de si mesmo, da auto-estima, do orgulho. Ele deve se humilhar e se envergonhar de se ver tão pecador e tão digno do inferno. Sem isso, a conversão é impossível. O pecado começa com orgulho e auto-adoração; a conversão, então, deve começar com auto-desprezo e vergonha.

Desta forma, a autossuficiência de um homem é abalada e o chão debaixo de seus pés é completamente retirado. Agora, essa vergonha deve ser sentida na primeira meditação. A vergonha, de fato, é o objetivo especial desta meditação, como diz Santo Inácio no preâmbulo, pudor et confusio mei ipsius; e no primeiro ponto, ut magis erubescam et confundar.

A vergonha, portanto, em primeiro lugar, é o escopo desta meditação, não medo e terror com a ideia de punição. Para produzir este estado de espírito é agora o fim de todos os esforços. No início, as palavras colocadas pelo Santo no primeiro preâmbulo, expressam com força o aviltamento e a degradação do pecador quase ao nível de animais brutos.

Segundo

O segundo preâmbulo faz uma aplicação pessoal do exercitante e Santo Inácio desenvolve essa linha de pensamento nos três pontos que se seguem. Coloca o pecado diante de nós em exemplos notáveis e terríveis, tirados de criaturas de diferentes ordens, para que possamos compreender plenamente a terrível injustiça, loucura e miséria contida em um único pecado.

Diante do tribunal de Deus, da história, da nossa razão, condenamos o pecado como algo totalmente vergonhoso e aviltante. Vemos, como em um espelho, a massa deformada de nossa loucura e pecaminosidade e, tremendo na profundidade da maldade de um pecado mortal, consideramos o que devemos ter sido aos olhos de Deus, na época em que tivemos o infortúnio de cometer não apenas um, mas muitos, incontáveis pecados mortais.

As Adições

As Adições, como já dissemos, são sugestões e se referem principalmente à meditação a fim de nos permitem torná-la melhor. Ou seja, realizá-las com maior fruto e facilidade, como diz Santo Inácio no título:

Ad melius facienda exercitia. . . . et ad melius inveniendum id, quod desiderat qui exercetur.

Portanto, elas não são absolutamente necessários. Podemos meditar sem elas, mas como? Reclamamos tantas vezes que a meditação não tem sucesso, ou que o conseguimos apenas com muita dificuldade.

Aqui estão os meios para torná-lo fácil e produtivo.

Podemos muito bem dizer que o sucesso de nossa meditação geralmente depende da maneira como observamos as Adições. Para fazer uma boa e útil meditação, três coisas são necessárias: a graça de Deus, nossa boa vontade e cooperação sincera.

Nossa cooperação consiste, em grande parte, na exata observância das Adições. O seu objetivo, a rigor, é preparar nossas almas e dispô-la adequadamente para a colheita dos frutos, única coisa que podemos fazer na vida espiritual.

A importância que Santo Inácio atribui às Adições pode ser deduzida do fato de que durante as quatro semanas dos Exercícios ele requer que façamos o Exame Particular sobre a nossa observância delas, como ele diz na quarta nota à Décima Adição. Consequentemente, não devemos subestimar as Adições, mas fazer de nosso exame sobre sua observância o primeiro e mais importante ponto da revisão.

Quão graves são os erros insignificantes em nossa vida cotidiana, e quão útil é um pouco de tato!

Quantas vezes, também, o crescimento de uma planta depende de uma ninharia!

Mas, além disso, se fizermos nossa parte observando fielmente as Adições, Deus não deixará de abençoar nossos esforços. Com que esforço não nos preparamos, quando devemos comparecer aos homens e falar- -lhes! Por que não devemos nos dar ao trabalho de colocar nosso coração em boa disposição quando temos que conversar com Deus? As Adições nos dizem o que devemos fazer antes, durante e depois da meditação.

Segunda Semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

Significado e escopo da segunda semana

Vimos que a última conclusão alcançada na primeira semana é que temos que lutar contra nossas paixões indisciplinadas, se quisermos evitar o pecado e, assim, garantir nosso último fim, que é a salvação eterna.

A segunda semana retoma o trabalho da primeira, dando-lhe um desenvolvimento adicional e mostrando como, em nosso estado decaído, podemos chegar ao nosso fim.

Sem a intervenção de nosso divino Salvador, teria sido impossível para nós sermos libertos do pecado ou no posicionar contra nossas paixões; uma verdade que o apóstolo expressa bela e concisamente na carta aos coríntios: “Graças a Deus, que nos deu a vitória (contra a morte) por Nosso Senhor Jesus Cristo” (ICor 15, 57).

Vendo que Deus insistia na satisfação plena, nenhuma criatura poderia cancelar a dívida contraída pelo pecado e, em consequência, nunca devemos julgar, nenhum de nós, ter a luz, a habilidade ou a força necessária para uma luta bem-sucedida contra nossas paixões. Uma prova suficiente disso é a história dos quatro mil anos que precederam a vinda de Cristo.

Cristo veio trazendo o resgate por nossa culpa e punição em uma mão, e uma espada na outra, para que por seu exemplo glorioso não menos do que por sua graça conquistadora, ele pudesse nos conduzir no conflito com nossas paixões. Não estamos mais sob uma lei morta, que apenas aponta o caminho mas não oferecendo ajuda. Não, um homem se apresenta, e não um mero homem, mas o Deus-homem, que se coloca à nossa frente, luta nossas batalhas conosco e nos dá um exemplo prático de uma guerra muito gloriosa.

Ele nos dá um exemplo prático, visto que, tendo se tornado semelhante a nós em todas as coisas, exceto o pecado, ele vai para a batalha sobrecarregado com as enfermidades de nossa carne. Ele nos dá um exemplo glorioso, na medida em que ele mesmo venceu o inimigo e, pela graça que dá e pelo amor que inspira, nos tornará, da mesma maneira, vitoriosos e invencíveis.

Neste combate, temos apenas que ficar ao seu lado e fazer o que ele faz. E como o pecado não apenas nos derrubou em um combate individual, mas também sujeitou tudo ao seu poder, como um déspota governante e o rei deste mundo e das trevas, assim Cristo não nos levará à batalha e à vitória sozinhos, mas nos associará a outros como súditos de um grande Reino de Deus que Ele veio estabelecer na Terra. Este é um esboço da segunda semana.

Contemplação sobre o Reino de Cristo

A Contemplação sobre o Reino de Cristo é muito importante. Ela serve como uma introdução para nos preparar para as contemplações sobre a vida de nosso Salvador. Este exercício, diz Santo Inácio no título, nos ajudará a meditar com frutos e êxito sobre a vida de Cristo.

Essa ajuda consiste em nos colocar no estado de espírito e disposição de vontade adequados para seguir a Cristo de perto e generosamente. As palavras do segundo preâmbulo são “para que eu não seja surdo, mas sim pronto e ansioso para cumprir Sua santa vontade”. O mesmo objetivo é novamente expresso com grande clareza na oração de conclusão da meditação.

Nesta fase, portanto, devemos ser iluminados e favoravelmente dispostos para tudo o que diz respeito ao seguimento de Cristo. O seguimento de Cristo inclui três coisas:

Primeiro, um conhecimento e amor da pessoa que devemos seguir.

Em segundo lugar, o conhecimento e amor por sua causa, à qual devemos devotar nossas energias.

Em terceiro lugar, um conhecimento do grau de generosidade com que podemos e devemos nos dedicar a esta causa, e uma resolução em conformidade com esse conhecimento.

Se possuímos este triplo conhecimento e somos cativados por ele, estamos bem preparados e podemos assumir a vida de nosso Senhor, confiantes de que dela tiraremos frutos satisfatórios. Nesse sentido, a meditação sobre o Reino de Cristo é fundamental.

Meditação sobre a Encarnação

Com esta contemplação se inicia a segunda semana.

Este exercício é apresentado sob a forma de contemplação, isto é, de meditação sobre coisas materiais, sensíveis, sobre lugares, pessoas, acontecimentos e palavras. O intelecto obtém uma base aqui por meio dos sentidos e dos objetos externos, e encontra nesses materiais para trabalhar.

Meditar dessa maneira é mais fácil do que meditar em verdades abstratas. Chamamos isso de contemplação, porque temos como, por assim dizer, ver as coisas como elas aparecem e deixá-las passar em revista diante de nós. Portanto, segue- -se que, neste método de meditação, a memória e a imaginação são postas em atividade com muito mais frequência do que nas meditações sobre as verdades abstratas da fé.

Uma característica peculiar desse método de meditação é que ele começa com um preâmbulo adicional para auxiliar a memória. Nele evocamos brevemente a história do acontecimento, e no segundo retratamos na imaginação a cena do mistério. O terceiro preâmbulo é sempre uma oração para conhecer, amar e imitar nosso Salvador.

Nas palavras de Santo Inácio, devemos orar por um conhecimento interior de nosso Senhor, de seu coração, de seu espírito, de seus pensamentos, princípios e tendências; podemos tomar este íntimo conhecimento, ainda, no sentido de vívido, completo, vindo do coração e indo para o coração.

Nesta contemplação e na seguinte, Santo Inácio nos dá um método para a distribuição dos pontos. Devemos dirigir nossa atenção em cada ponto para as pessoas, suas palavras e suas ações, uma forma muito simples, e muitas vezes, a melhor maneira de considerar os mistérios. No entanto, não é necessário seguir essa divisão invariavelmente.

Podemos abordar os vários eventos ou cenas do mistério e, em cada um deles, nos deter em pessoas, palavras e ações. É o que o próprio Santo Inácio faz mais tarde, quando divide os mistérios em pontos. Por último, não será errado se de tempos em tempos refletirmos sobre a natureza do mistério e examinarmos seu fim e seus meios, suas causas e efeitos, etc.

Isso pode ser feito com vantagem, especialmente quando o mistério evidentemente tende a algum grande resultado, que pode ser chamado de fim e intenção de nosso Salvador no mistério. A menos que visemos esse objetivo especial, podemos demorar-nos nos detalhes, bons e úteis em si mesmos, mas não incluindo a substância e o fruto principal do mistério. Mas quando o fruto principal foi colhido e assegurado da maneira que acabamos de descrever, podemos tomar nas repetições o que resta e transformá-lo em lucro.

Santo Inácio dispõe, a partir daí, a Contemplação da Natividade com a Aplicação dos Sentidos, uma novidade no texto dos Exercícios. Este exercício consiste em percorrer os mistérios por meio dos sentidos, ou seja, em ver os mistérios na medida em que, por meio da imaginação, eles entram nos sentidos, podem ser por eles apreendidos e apresentados à mente.

Para contemplar os mistérios desta maneira devemos permitir que todo o evento conforme relatado nas Escrituras, até mesmo em seus menores detalhes seja trazido à nossa vista, audição, paladar e tato; devemos permitir que atue sobre os sentidos e nos esforçarmos com tudo isso para obter algum lucro adequado para nossa alma.

O exercício, portanto, consiste em observar em detalhes os lugares, as pessoas, sua aparência externa e suas ações; em ouvir o que eles dizem, ou podem dizer; em saborear em nossos corações a fragrância, por assim dizer, e a doçura de suas virtudes; em sentir em espírito quão frio, por exemplo, e duro e úmido era o solo da gruta onde eles estavam ou se ajoelhavam; em beijar em espírito o mesmo terreno, embora não as pessoas, visto que a humildade e a reverência o proíbem e em fazer tudo isso para o benefício espiritual de nossos alma.

Aqui temos um novo método de oração mental, que é aplicado também a diversos outros episódios da vida de Cristo nosso Senhor, como a Fuga para o Egito e a perda do menino Jesus no Templo.

Consideração dos vários estados de vida

O assunto mais importante em todos os Exercícios é, sem dúvida, a eleição, seja de um estado de vida, seja da reforma em um estado já adotado anteriormente.

Esta eleição é simplesmente o resultado, o fruto dos Exercícios, daí também a sua finalidade, como fica evidente pela definição dada na Primeira Anotação, onde nos é dito que são exercícios pelos quais devemos buscar a vontade de Deus e encontrá-la no ordenamento de nossas vidas para a salvação de nossa alma.

Visto que o assunto é tão importante, devemos esforçar-nos ao máximo para garantir uma boa eleição. Pela mesma razão, Santo Inácio teve que considerar como ele poderia nos ajudar neste caso.

E, de fato, ele começa a nos ajudar neste mistério, pois, como vimos, pelo exemplo de nosso Senhor no Templo, é oferecida uma ocasião e um convite feito ao exercitante para examinar se e até onde ele também é chamado à perfeição, e como ele vai ordenar sua vida de acordo com seu chamado.

Agora, a fim de nos permitir fazer uma eleição perfeita, Santo Inácio propõe três meditações, cujo objetivo é nos fazer, por uma preparação gradual, em um estado de espírito adequado para este passo – et ideo pro inductione hujus rei, etc. A primeira dessas meditações é sobre as Duas Bandeiras, a segunda, sobre as Três Classes de Homens, e a terceira, sobre os Três Graus de Humildade.

Essas meditações formam então uma trilogia, um todo completo e bem acabado, cujo objetivo é colocar o homem no estado de espírito e disposição adequados para uma eleição perfeita; assim como na primeira semana, uma trilogia semelhante trouxe gradualmente sua justificativa. Vejam aqui novamente o arranjo lógico e psicológico dos Exercícios!

Aqui Santo Inácio indica também o que nós mesmos devemos fazer para adquirir a disposição necessária. Pois ele diz: No curso de nossas meditações sobre a vida de Cristo, comecemos a investigar e a perguntar em que tipo de vida ou estado sua Divina Majestade se agrada de que o sirvamos.

Oremos, portanto, e comecemos a busca por nós mesmos. Esta é a boa vontade e generosidade a que se refere a Quinta Nota. Ambas as disposições estão previstas nas três meditações seguintes, nas quais Santo Inácio, por meio dos três Colóquios, nos conduz à oração prolongada.

A Terceira Semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

O objetivo da terceira semana é confirmar nossa eleição. E verdadeiramente esta semana está investida de um poder maravilhoso para trazer tal resultado. É aqui que nosso Senhor verifica em sua própria pessoa tudo o que temos meditado.

Sua determinação de ganhar Sua glória pelo combate e sofrimento, como isso nos atrai seriamente! Como Ele mostra aos nossos olhos os melhores meios! Como Ele prega o terceiro grau de humildade e apela ao nosso amor e generosidade! Como nos revela a grandeza e a nobreza do Seu carácter real, entrando livremente na Sua Paixão, com um coração forte e cheio de amor por cada um de nós!

Na verdade, Seu exemplo cresce em proporções gigantescas. Ele sofre e morre por nós! Os Santos não recorreram a outro meio senão a contemplação da Paixão de Cristo para atingir o terceiro grau de humildade. E o próprio nosso Senhor disse que da cruz ele atrairia todas as coisas para si (Jo 12, 32).

Além disso, a Paixão de nosso Salvador lança uma luz sobre a primeira semana e adiciona força renovada às resoluções que tomamos durante ela. Acima de tudo, vemos sob uma luz inteiramente nova a natureza do pecado e das paixões, esses instrumentos do pecado.

É aqui que os vemos envidando seus maiores esforços no assassinato do Deus-homem. Esse é o trabalho deles! Toda a história da Paixão é uma grande tragédia, na qual as paixões são os protagonistas. Nada pode nos dar uma ideia mais terrível do que é o pecado do que o pensamento de que, para expiar por ele, um Deus deve se tornar a vítima.

Embora os sentimentos de compaixão, de amor e de gratidão sejam de fato muito apropriados; o ódio ao pecado, entretanto, e a resolução de fazer guerra às paixões são muito mais necessários. Como disse nosso Senhor às mulheres que choravam por ele:

“Chorem por vocês mesmas e por seus filhos! Pois se no bosque verde eles fazem essas coisas, no seco o que se fará?” (Lc 23, 28-31.)

Por último, que ideia exaltada nos dá a terceira semana da necessidade e grandeza da salvação de nossa alma e do serviço de Deus, visto que valem o preço de tais trabalhos!

A Quarta Semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

O fim e o objetivo desta semana é estabelecer e confirmar o último ponto do manifesto da Contemplação sobre o Reino de Cristo, a saber, que depois da batalha segue-se a vitória, que essa vitória é mais certa e gloriosa, e que nossa participação nela e na recompensa será proporcional à nossa participação no trabalho da batalha.

Ou seja, esta semana, como a terceira, não tem outro objetivo senão confirmar-nos na eleição que fizemos, apresentando ao nosso olhar a esplêndida recompensa, que se mostra clara e vividamente na pessoa de Cristo. Nele contemplamos a glória que nos espera na vida futura, até mesmo para nossos corpos. É para deixar claro que Cristo caminha conosco em seu corpo glorificado por quarenta dias e então sobe ao céu.

A segunda e a terceira semanas, por assim dizer, indicam o caminho; a quarta nos mostra o objetivo. E assim, mais uma vez, um fluxo de luz é deixado entrar no Fundamento. A alegria e o amor constituem, portanto, o espírito desta semana, ou melhor, o seu fruto e fim próximos E por que devemos nos alegrar? Em primeiro lugar, pelo triunfo e alegria do nosso Divino Salvador.

Ah! quanto ele merece que nos regozijemos por causa de sua alegria e somente por sua causa. No entanto, também há motivo para regozijo por nossa própria conta; pois nós também devemos compartilhar a alegria e o triunfo de nosso Salvador. Sua alegria é a nossa alegria e a alegria de todos os seus seguidores fiéis, a quem ele agora recompensa e consola.

O motivo aqui apresentado não é, é verdade, o mais elevado; mas certamente é prático. Pois muitas vezes pode acontecer em tempos de provação, que quase nada mais nos impressionará além da resposta à pergunta: “quanto tempo isso vai durar? E a quem isso beneficiará no final?” Então respiramos aliviados, vamos trabalhar mais uma vez, e a própria cruz parece se tornar suportável.

A Sagrada Escritura também não esquece esse motivo; pois é o motivo da esperança cristã. Nosso Senhor o usa com frequência, ao proferir palavras de consolo, especialmente em seu discurso de despedida (Jo 14, 2; 15, 22).

Para o próprio nosso Senhor, a luta durou apenas trinta e três anos; sua grande paixão apenas algumas horas. E, afinal, desse motivo para o amor perfeito, há apenas um passo. Aqui, novamente, quão grande e glorioso é o caráter de nosso Senhor, visto que se apresenta diante de nós! Que mestre ele é! Bem além da medida, ele mesmo é imortal e requer seus servos com recompensa sem fim! Só esse pensamento nos leva adiante para o amor perfeito.

Tampouco devemos ignorar a natureza amável e afetuosa de seu relacionamento com os seus depois da Ressurreição, seu esforço constante e incansável em nosso favor, manifestando em sua vida glorificada uma atividade maravilhosamente enérgica e divina, enquanto ele coloca a última pedra no edifício de seu Reino, a Igreja.

Conclusão

Essa é a explicação do Livro dos Exercícios.

Como observamos no início, é um manual completo da vida espiritual e, especialmente, do ascetismo da Companhia de Jesus. A Companhia, em sua natureza, finalidade e meios, é fundada nela e surgiu dela como de seu molde.

Os Exercícios são a grande escola militar, da qual surgiram os grandes apóstolos da nossa Ordem, que partindo para o oriente e o ocidente resgataram do inferno tantas nações e reinos, e os reconquistaram para Cristo e a Igreja. Mesmo antes de nossas Regras existirem, a escolaridade nos Exercícios fez com que os membros da Sociedade, embora espalhados por todo o mundo, lutassem como um homem, com o mesmo espírito, com as mesmas armas e com os mesmos resultados. T

ambém a Divina Providência, em sua bondade, fez uso desses Exercícios como um instrumento nada sem importância na reforma gloriosa que a Igreja realizou dentro de si depois da triste revolta do Norte da Europa.

Devemos, portanto, recebê-lo e honrá-lo como uma marca especial da misericórdia divina para conosco. Nada mais condizente com a nossa vocação do que nos esforçarmos para um conhecimento mais profundo deste livro e nos prepararmos para comunicar ao mundo com mão liberal e incansável os tesouros que nós mesmos adquirimos, para o louvor do nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja dada honra e glória para sempre.

AD MAIOREM DEI GLORIAM

Nota: Esta introdução aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola é um comentário do Padre Maurício Meschler, S. J.

Este comentário esta incluido na edição publicada pela Editora Caritatem. Esta edição faz parte do box de novembro, do Clube de Leitura Caritatem.

Leia também: Porque ler livros antigos?

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