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Por que é importante que a mãe conheça seu filho?

Em duas fórmulas se podem resumir todos os princípios da educação. A primeira consiste em lutar contra as más inclinações; a segunda, em criar os bons hábitos no lugar deixado por aquelas. São os bons hábitos que devem dar à criança uma segunda natureza ou, para sermos mais exatos, uma natureza melhor.

Mas para haver eficácia e fruto nessa luta, colhendo-se dela resultados positivos e vitórias perduráveis, é indispensável conhecer o terreno, preparando-o para o combate, silencioso, mas tantas vezes terrível, com um perfeito conhecimento dos elementos  nocivos e da sua predominância.

Abundam as mães cheias de sincera boa vontade, que desejam ardentemente educar com dignidade os seus  filhos, absorvidas pela ânsia de se devotarem, sem pensamentos reservados e com toda a coragem, a uma missão que conhecem ser indispensável.

Contudo, esquecem-se de uma coisa: de que a alma humana, e principalmente a das criancinhas, é um imenso campo de estudos, sendo preciso muito tempo, experiência e perspicácia, e postos em prova a cada instante, para fazer o percurso de todos os seus múltiplos aspectos.

Ora, a este trabalho é que as mães se devem aplicar, primeiro que tudo.

Dispensou-lhes a Providência um sentido especial, uma espécie de dupla vista que lhes permite ler nas almas até ao seu íntimo mais inacessível. Mas é preciso que saibam observar.

Não é livro de fácil leitura a natureza moral das criancinhas. É um caos de obscuridades. Tentar descer a tais profundidades, é palpar, nas trevas, um trabalho que exige tão maravilhosa sagacidade como experimentada paciência.

Contudo, a mãe atenta, de zelo sempre ativo, depressa explora tal abismo e lhe devassa os mistérios. Basta ver como ela está ao pé do filho. A criança, como qualquer outra pessoa, não passa de um frágil corpo que vive. Para a mãe, já é uma inteligência.

A mãe sabe compreender o que é que seu filho quer, e sabe sentir o que ele sofre.

Por um admirável fenômeno divinatório, profetiza o futuro do seu tesouro.

“Será voluntarioso, teimoso, malicioso…”

Dir-se-ia que as menos características inclinações, as mais imperceptíveis, se avolumam e ampliam ao passarem pelo coração materno que as sente, pela razão da mãe que as explica.

A mãe, por menos que adestre e queira aprofundar tal ciência em que recebeu do Senhor os dotes mais prodigiosos, sente as primeiras rebeldias e paixões do seu filho — como que murmúrios só por ela ouvidos, visões que apenas são recebidas pela sua requintada e quase infalível clarividência.

E, se a não cegar uma desastrada pieguice, e ainda a preocupação de encontrar no seu filho só inumeráveis e imaginárias virtudezinhas, a mãe rapidamente há de compreender que naquela existenciazinha, feita de impressões e de sensibilidade, o que primeiro revela a alma são as más tendências.

Deplorável destino da nossa natureza é o de ostentarmos, ao vermos a luz do dia, o cunho funesto do pecado original.

Pode a criança, ao passo que vai crescendo, mostrar-se generosa.

Nos seus primeiros dias, é sempre mais provável que seja egoísta.

Com o tempo, pode vir a ser mansa. Nos primeiros meses da sua existência, terá movimentos rudes, ímpetos de cólera. As qualidades, até as naturais, não se desenvolvem sem tempo. Os defeitos apressam-se a aparecer, e quando vêm as qualidades, já eles se desenvolveram.

Não querendo, por forma alguma, afirmar que todas as crianças nascem fatalmente más, é, porém, justa a nota de que o número das suas tendências impertinentes excede muito o das suas boas qualidades.

Diz Labruyère nos seus Caráteres:

“As crianças são, por natureza, orgulhosas, desdenhosas, coléricas, invejosas, curiosas, interesseiras, preguiçosas, rapinantes, covardes, gulosas, mentirosas, hipócritas… não querem sofrer a menor violência e gostam de as exercer sobre os outros; são já homens”.

Não é lisonjeira a lista de epítetos. Mas, para sermos sinceros, temos que reconhecer que é justa.

Só se compenetrando destas realidades, mas sem tentar baldadamente achá-las excessivamente rigorosas, e sem colher nelas um desalento nocivo, é que a mãe poderá encarar o mal, conseguindo os remédios que o devem curar. Isto verifica-se e sente-se.

Diz Le Play:

“A mais estúpida das amas, como a mais sagaz das mães, pode ver, a cada passo, quanto predomina nas criancinhas a tendência para o mal. Os grandes pensadores que observaram diretamente a infância, concluíram todos assim. Finalmente, todos os educadores dos homens eminentes conseguiram sempre o seu triunfo pedagógico só à custa da zelosa repressão das tendências viciosas dos seus jovens educandos”.

É, pois, evidente que para se realizar a obra útil da educação, tem de evitar-se logo um escolho, o primeiro de todos: de se querer que a criança seja como o desejaríamos. A mãe deve ver o seu filho tal como ele é, na realidade.

O conhecimento do mal já dá probabilidades de se encontrar o remédio e a cura dele. E não será a educadora o primeiro médico da alma, assim como a mãe é o primeiro médico do corpo?

O pecado original é expungido pelo batismo. Mas a mulher, a quem Deus confiou a sua viva imagem, deve continuar a obra do sacramento e dar uma vigorosa saúde moral à almazinha curada, mas que conserva ainda a fraqueza devida à enfermidade que desapareceu.

Mas surge, neste ponto, um gravíssimo reparo.

Se a criança traz nativamente os defeitos já constituídos, como que uma bagagem excessivamente grande de funestos gérmenes, é absolutamente necessário impedir-lhe o ulterior desenvolvimento, começando cedo por obstar à ação de todas as causas estranhas que possam infiltrar elementos perigosos no organismo moral do pequenino ser.

Antes ainda da empresa de se expulsar a vegetação nociva, cumpre tolher o passo com urgência aos novos elementos que possam fortificar a resistência ao bem, e multiplicar os já inúmeros cuidados.

Em suma: primeiro que tudo, deve a mãe fazer a obra de perseverança. Tem ela apenas um meio de evitar essas influências destruidoras: é o de ter sempre zelosamente o seu filho consigo; torná-lo seu com escrupulosa integridade; temer, como se teme um desastre, que ele receba a influência, embora momentânea, de uma natureza que não seja a dela; e não o confiar, senão o menos possível, a mãos estranhas.

Trecho extraído do “O Livro da Educadora”, de  Paulo Combes. Para adquiri-lo com frete grátis para todo o Brasil, clique aqui.

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