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Princípio e progresso do culto ao Sagrado Coração

Na Idade Média e nos séculos seguintes

Querendo agora indicar somente as etapas gloriosas percorridas por este culto na história da piedade cristã, mister é recordar, antes de tudo, os nomes de alguns daqueles que bem podem ser considerados os porta-estandartes desta devoção, a qual, em forma privada e de modo gradual, foi-se difundindo cada vez mais nos institutos religiosos. Assim, por exemplo, distinguiram-se por haver estabelecido e promovido cada vez mais este culto ao coração sacratíssimo de Jesus: São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, o Beato Henrique Suso, São Pedro Canísio e São Francisco de Sales. A São João Eudes deve-se o primeiro ofício litúrgico em honra do sagrado coração de Jesus, cuja festa se celebrou pela primeira vez, com o beneplácito de muitos bispos de França, a 20 de outubro de 1672. Mas entre todos os promotores desta excelsa devoção merece lugar especial Santa Margarida Maria Alacoque, que, com a ajuda do seu diretor espiritual, o beato Cláudio de la Colombière, e com o seu ardente zelo, conseguiu, não sem admiração dos féis, que este culto adquirisse um grande desenvolvimento e, revestido das características do amor e da reparação, se distinguisse das demais formas da piedade cristã.

Basta essa evocação daquela época em que se propagou o culto do coração de Jesus para nos convencermos plenamente de que o seu admirável desenvolvimento se deve principalmente ao fato de se achar ele em tudo conforme com a índole da religião cristã, que é religião de amor. Por conseguinte, não se pode dizer nem que este culto deve a sua origem a revelações privadas, nem que apareceu de improviso na Igreja, mas sim que brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa de almas prediletas para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do seu amor imenso que intimamente comovem os corações. Evidente é, portanto, que as revelações com que foi favorecida Santa Margarida Maria não acrescentaram nada de novo à doutrina católica. A importância delas consiste em que – ao mostrar o Senhor o seu coração sacratíssimo – de modo extraordinário e singular quis atrair a consideração dos homens para a contemplação e a veneração do amor misericordioso de Deus para com o gênero humano. De fato, mediante manifestação tão excepcional, Jesus Cristo expressamente e repetidas vezes indicou o seu coração como símbolo com que estimular os homens ao conhecimento e à estima do seu amor; e ao mesmo tempo constituiu-o sinal e penhor de misericórdia e de graça para as necessidades da Igreja nos tempos modernos. 

Aprovação pontifícia da festa  do coração sacratíssimo de Jesus

Prova evidente de que este culto promana das próprias fontes do dogma católico dá-a o fato de haver a aprovação da festa litúrgica pela Sé Apostólica precedido a aprovação dos escritos de Santa Margarida Maria. Na realidade, independentemente de toda revelação privada, e secundando só os desejos dos féis, por decreto de 25 de janeiro de 1765, aprovado pelo nosso predecessor Clemente XIII, a 6 de fevereiro do mesmo ano, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu aos bispos da Polônia e à arquiconfraria romana do sagrado coração de Jesus a faculdade de celebrar a festa litúrgica. Com esse ato, quis a Santa Sé que tomasse novo incremento um culto já em vigor, cujo fim era “reavivar simbolicamente a lembrança do amor divino” que levara o Salvador a fazer-se vítima de expiação pelos pecados dos homens.

A essa primeira aprovação, dada em forma de privilégio e limitadamente, seguiu-se, a distância de quase um século, outra de importância muito maior, e expressa em termos mais solenes. Referimo-nos ao decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 23 de agosto de 1856, anteriormente mencionado, com o qual o nosso predecessor Pio IX, de imortal memória, acolhendo as súplicas dos bispos da França e de quase todo o orbe católico, estendeu a toda a Igreja a festa do coração sacratíssimo de Jesus, e prescreveu a sua celebração litúrgica.(36) Esse fato merece ser recomendado à lembrança perene dos fiéis, pois, como vemos escrito na própria liturgia da festa, “desde então o culto do sacratíssimo coração de Jesus, semelhante a um rio que transborda, superou todos os obstáculos e difundiu-se pelo mundo todo”.

De quanto até agora expusemos, veneráveis irmãos, aparece evidente que é nos textos da Sagrada Escritura, na tradição e na sagrada liturgia que os fiéis hão de encontrar principalmente os mananciais límpidos e profundos do culto ao coração sacratíssimo de Jesus, se desejam penetrar na sua íntima natureza e tirar da sua piedosa meditação alimento e incremento do fervor religioso. Iluminada, e penetrando nela mais intimamente mediante esta meditação assídua, a alma fiel não poderá deixar de chegar àquele doce conhecimento da caridade de Cristo no qual se resume toda a vida cristã, tal como, instruído pela própria experiência, o ensina o Apóstolo: “Por esta causa dobro meus joelhos ante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…, para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda por meio do seu Espírito serdes fortalecidos em virtude no homem interior, e para que Cristo habite pela fé nos vossos corações, estando vós arraigados e cimentados em caridade; a fim de que possais conhecer também aquele amor de Cristo que sobrepuja todo conhecimento, para serdes plenamente cumulados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,14. 16-19). Dessa plenitude universal é precisamente imagem esplêndida o coração de Jesus Cristo: plenitude da misericórdia própria do Novo Testamento, no qual “Deus nosso Salvador manifestou a sua benignidade e amor para com os homens” (Tt 3,4); pois “Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas sim para que, por meio dele, o mundo se salve” (Jo 3,17).

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Trecho extraído da Encíclica “Haurietis Aquas”, de S.S. Papa Pio XII. O livro está disponível gratuitamente para os assinantes do nosso Clube de Leitura Caritatem. 

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